01/11 | Salve às mulheres do Afeganistão

Por:
Marco Antonio Silva

Se empregarmos um pouco de esforço para nos libertarmos do preconceito, enxergamos a beleza da religião Islâmica. O profeta Maomé (Mo Hamed), que significa “aquele que será louvado”, emitiu afirmativas como: “melhor que orar, jejuar e fazer caridade, é tratar bem o outro” e “se insultar, agredir e roubar o outro, terá que reparar o dano”, não deixando dúvidas quanto ao sublime compromisso de tratar o próximo como gostaria que fosse tratado: com amor e justiça. Mas a humanidade, em todas as civilizações, sempre deixou que corrompessem as mensagens divinas, conforme seus interesses momentâneos, ou adaptando-as a curta visão sobre as coisas eternas.

Recentemente uma preocupação passou a dividir foco com a pandemia da Covid19: a retiradas das tropas norte-americanas do Afeganistão após vinte anos de ocupação, que tinha como argumento o combate ao terrorismo. Mas um aspecto em especial recebeu maior atenção dos noticiários, o destino das mulheres daquele país com a implantação do Talibã, regime fundamentalista e rígido, que mistura interpretações do Islamismo com controle político e táticas de guerra, regime que coloca a mulher como ser socialmente apartado, totalmente submisso, excluído e sem direitos. Mas, infelizmente, isso é uma coisa geograficamente pontual, nem atual na história.

Voltando na própria história do Cristianismo, achamos as conexões históricas com essa cultura antiquada. No livro Gênesis, do Antigo Testamento, vemos a relação de Abraão, sua esposa Sara e a escrava Agar. Sara já idosa não conseguia gerar um descendente para Abraão e entrega para sua escrava o papel de genitora. Mas após o nascimento de Ismael, filho desta relação, Sara “milagrosamente” engravida, iniciando então uma disputa de quem deveria ser o principal herdeiro. A escrava Agar e seu filho Ismael são expulsos para o deserto e em um determinado ponto, quando ela já se desesperava de sede, um anjo de Deus aponta uma fonte de água e revela que Ismael daria origem a uma nação, os povos árabes. A fonte conhecida por Zem-Zem, passou a ser considerada sagrada, e ali Maomé, 600 anos depois de Cristo, coordena a construção do edifício Caaba, na Meca, local de peregrinação obrigatória para os muçulmanos até os dias atuais. É dessa relação original escravocrata, que tem a mulher como um ser sem escolhas destinado a reprodução, que saem as mais importantes religiões da atualidade, reproduzindo no inconsciente a cultura da submissão ao julgo masculino.

Quando ampliamos a visão para a realidade do mundo espiritual, no qual o espírito expressa o gênero que determina seu estado de consciência naquela etapa da existência e caminha vida após vida experimentando as diversas realidades hora num corpo masculino, horas num corpo feminino em busca de sua evolução integral, passamos a compreender a insustentabilidade de certas afirmações culturais e entendemos a necessária cooperação entre os seres para o cumprimento da Lei Natural do Progresso.

Mas esse saber por si só não alivia a preocupação com as mulheres afegãs, nem impede os questionamentos sobre a justiça da vida. O que teriam feito elas para merecer tal destino? Porém, ao recorrermos ao texto de Delfina de Girardin (espírito), no item 24 do capítulo V, do Evangelho Segundo o Espiritismo, vemos o quanto a visão da reencarnação como mecanismo da Lei Divina de Amor, Justiça e Caridade, nos auxilia a compreensão. Diz ela: “Para julgarmos de qualquer coisa, precisamos ver-lhe as consequências. Assim, para bem apreciarmos o que, em realidade, é ditoso ou inditoso para o homem, precisamos transportar-nos para além desta vida, porque é lá que as consequências se fazem sentir.”

Já no Livro dos Espíritos (perg. 258), Allan Kardec pergunta sobre a possibilidade de escolher o que irá vivenciar no plano terreno e os espíritos que auxiliaram na Codificação do Espiritismo o respondem: “Ele próprio escolhe o gênero de provas por que há de passar e nisso consiste o seu livre-arbítrio.”

Portanto, as mulheres que nasceram no Afeganistão na atualidade, podem sim ter escolhido estar lá e voluntariamente viver aquele ambiente, enfrentando as adversidades, dando testemunhos de coragem e resignação, servindo de provas vivas do nosso coletivo primitivismo planetário, de um lado resgatando dívidas do passado adquiridas em outras vidas, e de outro, avançando espiritualmente, conforme se comportarem diante das provas. Devemos reverenciá-las enquanto agimos para mudar o tenebroso quadro.

A tese das provas voluntárias não é tão difícil de assimilar quando imaginamos uma pessoa que mora numa favela e olha para um bairro nobre. Ela facilmente pode desejar morar lá, o contrário não acontece com facilidade. Mas temos inúmeros exemplos de pessoas que voluntariamente se despem do conforto para viver num ambiente de penúria pelo puro sentimento de solidariedade e compaixão. Na edição de março de 2019 da Revista ModaA, citamos os exemplos: Madre Tereza de Calcutá, reconhecida mundialmente como a Santa das Sarjetas, e sua amiga a Princesa Diana, a Lady Di, que cuidava dos portadores do vírus HIV, de crianças órfãs e de mutilados por minas terrestres. Ambas inicialmente sob os olhares de reprovação das instituições as quais pertenciam.

Mas ainda podemos citar as corajosas mulheres que aceitam acolher em seus ventres as crianças portadoras de variado prisma de limitações físicas, representados pelas diversas síndromes e deficiências, muitas vezes arcando sozinhas com os cuidados de uma vida inteira porque seus companheiros fugiram ao compromisso da paternidade.

Em nossas justas preocupações com as mulheres do Afeganistão, não devemos ignorar o que é nascer mulher no Brasil, longe de um grande centro urbano, em um ambiente carente de recursos materiais, numa família de negros, que ainda por cima adotam uma religião de raízes africanas. Quais são as chances de modificarem seus status? Quais são as chances de não se conformarem a condição de mulher submissa a um homem opressor, detentor de um poder que lhe foi atribuído pela sociedade? Sem a lupa da vida espiritual, tendemos a colaborar com a exclusão e a reproduzir o preconceito, pela limitação da visão de uma única vida.

A visão das vidas futuras, esclarecida pela justiça do mecanismo da reencarnação, o amor a Deus, que criou o universo e suas Leis, e a prática da caridade inspirada nos exemplos de Jesus, serão capazes de nos encorajar a encarar qualquer tipo de provação.

Sim, as mulheres do Afeganistão merecem nossa reverência, nossa saudação. Um Salve às mulheres afegãs. Salve às mulheres brasileiras, as negras, as pobres, as mães solteiras, as mães de filhos portadores de deficiências, as abnegadas voluntárias do bem e da caridade. Que possamos ajustar nossos olhares um pouco todos os dias e agir, agir para corrigir o que com certeza construímos no passar das existências.


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