22/10 | Mulher no Mercado de Trabalho

Por:
Mariana Hirche

Há 100 anos, o mercado de trabalho segue desafiador para as mulheres.
“A mulher é, por natureza, inferior ao homem”. Assim pensava Aristóteles em 300 a.C, ou seja, há mais de 2 mil anos. Ele também pensava que a Terra está imóvel no centro do Universo, que o cérebro serve para esfriar o sangue, que casais jovens têm filhos mais fracos, que o olho se torna colorido ao enxergar a cor e que o coração é o órgão da consciência. Enquanto todos seus disparates foram desmentidos pela ciência com o passar do tempo, a ideia de que a mulher é inferior continua ecoando culturalmente até hoje em nossa sociedade. Mais tarde, por volta de 1804, o Código de Napoleão Bonaparte influenciou a condição diminuta da mulher ao regrar que ela é propriedade do marido e que sua função primordial é gerar filhos, ideia que continua sendo validada até hoje. Contudo, durante as grandes guerras (1914 – 1918 e 1939 – 1945), sem operários para as fábricas, o mercado de trabalho foi aberto à mulher. O fim das guerras marcou a consolidação do sistema capitalista, dando início à revolução industrial. Nessa época, o trabalho da mulher passou a ser muito utilizado dentro das fábricas porque elas aceitavam salários inferiores aos dos homens, mesmo fazendo os mesmos serviços. As mulheres se sujeitavam a jornadas de trabalho de 14 a 16 horas por dia, salários baixos e em condições precárias, que afetavam sua saúde, tudo para não perder o emprego. Isso sem contar todos os afazeres domésticos e cuidados com os filhos.

Hoje é diferente?

Segundo o relatório Global Gender Gap Report (Relatório Global sobre a Lacuna de Gênero - 2020), do Fórum Econômico Mundial, o Brasil figura a 130º posição em relação à igualdade salarial entre homens e mulheres que exercem funções semelhantes, em um ranking com 153 Países. Há, ainda, muito preconceito em relação ao desempenho da mulher no mercado de trabalho, sobrando-lhe as vagas tidas como “femininas”, como professora de Ensino Básico, secretária, doméstica, enfermeira e cuidadora, todos com salários muito inferiores às vagas tidas como “masculinas”, como engenharia, cargos políticos e no mercado da tecnologia.
A especialista em controle de pragas Nina Ferreira, acredita que ser mulher já é uma provação, mas ser mulher e trabalhar em cargos considerados masculinos é o próprio purgatório. “Todos os dias você vai ter que ser mil vezes melhor que um homem desempenhando o mesmo serviço. Você não pode errar, caso contrário, a primeira coisa que vai ouvir fará referência ao seu gênero”, define. Ela diz que se sente vigiada o tempo todo, como se alguém ficasse esperando o momento em que ela vai errar. “Não importa o quanto você seja boa ou extremamente qualificada, até dos bueiros vão brotar homens pedindo se você quer ajuda. Quando estamos sujas, suadas, com o cofrinho aparecendo, isso é erotizado. O tempo todo vão te perguntar se não tem um rapaz para te ajudar, se você queria mesmo fazer isso, se você dá conta”, avalia. Nina também se queixa que as decisões só são aceitas se um homem repeti-las como se fosse ideia dele. “E quando você estiver frustrada e quiser reclamar de tudo isso, sempre vai ter quem diga que é exagero. E, o pior de tudo, é que grande parte dos julgamentos virão de mulheres”.

Esse emprego, diz, só conseguiu porque a empresa em que atua investe em programa de diversidade, pelo qual apostam em contratações de mulheres para os cargos de engenharia e afins. “Mas mulher que resolve trabalhar como mecânica é fonte de desconfiança. Já um homem que resolve ser cozinheiro é um ídolo. Não se deixem enganar: profissão não tem gênero”, aconselha. Não apenas no trabalho, ela sente o preconceito masculino. “Até no meu hobby isso acontece. Tenho uma página de nerdices, onde falo de animes, mangás, HQs, e é bem comum comentários como ‘menina não manja desse assunto”, lamenta. “Mas ir contra a maré das imposições sociais sempre vale a pena. Seja e trabalhe com o que você quiser”, avalia. por outros meios, não por merecimento”, finaliza.

Política
Um dos ambientes com maior predominância masculina é o da política. O Brasil, por exemplo, ocupa a 154ª posição em ranking de participação de mulheres no Parlamento, elaborado pela ONU Mulheres, em parceria com a União Interparlamentar (UIP), levantado em 2017, que analisou 174 países. Mesmo que 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do tempo de propaganda gratuita no rádio e na TV seja obrigatoriamente para as candidaturas de mulheres, apenas 15% das cadeiras da Câmara dos Deputados foram ocupadas por elas nas últimas eleições -- na gestão anterior, eram 10%.
Deputada Federal, Leandre Dal Ponte acredita que toda mulher, assim como ela, já sofreu algum tipo de discriminação quando esteve envolvida em temas que são naturalizados como masculinos, como é o caso da política, por mais que às vezes não se perceba na hora com tanta clareza. “Para conviver em um ambiente assim, muitas vezes a gente precisa se impor para ser ouvida, mas sem agressividade, e sim mostrando competência, propriedade e deixando claro que a diversidade de ideias e as diferentes perspectivas contribuem para alcançar os objetivos daquele grupo com maior eficácia”, acredita. 

Tecnologia
O desenvolvimento tecnológico, acelerado ainda mais com a pandemia, tem transformado a forma como trabalhamos. Aulas on-line, robótica, comércio eletrônico, Inteligência Artificial e tudo o que deveria colaborar para a colocação de pessoas no mercado, está formando mais uma barreira invisível às mulheres. Isso porque o mercado de tecnologia é mais uma profissão que enxerga as mulheres como inaptas, ou com menos aptidão que os homens, reforçando ainda mais a desigualdade.
Desde pequenos os meninos são estimulados a jogar videogame, usar o computador, enquanto as meninas são incentivadas a cuidarem da aparência. Com meninos fazendo curso de robótica enquanto as meninas estudam ballet, elas perdem espaço já de saída. Em 2020, conforme informação do Brasscom, 548 mil postos de trabalho em tecnologia eram preenchidos por homens, enquanto 320 mil vagas eram ocupadas por mulheres. Uma dessas vagas é de Ana Carla Borsoi, analista desenvolvedora tecnóloga em Sistemas para Internet e pós-graduanda em Prática de Metodologias Ágeis. Ela conta que, na adolescência, antes mesmo de blogs e YouTube serem tão utilizados como ferramentas de trabalho, já gostava de personalizar as suas páginas, criar seus vídeos, editar e publicar. “Nessas personalizações eu descobri que existia a área de desenvolvimento de sistemas e me apaixonei pela ideia de trabalhar fazendo isso. Assim nasceu meu amor pela programação”, relembra.
Ana Paula acredita que nem todo ambiente de trabalho em tecnologia seja inimigo das mulheres, que isso varia conforme as pessoas que fazem parte da empresa, o clima organizacional, entre outros fatores. “Mas eu acredito, sim, que existem situações em que as mulheres precisam fazer duas, três, quatro vezes mais do que os homens para terem o mesmo reconhecimento. Além das diferenças salariais já conhecidas de quase todas as profissões”, reforça.
Outra coisa que incomoda a programadora são as várias situações em que as pessoas fazem comentários que acham engraçados, “as famosas """"piadinhas"""" -- com várias aspas mesmo --, pensando que estão fazendo tudo certo porque sempre ouviram isso, nunca questionaram e consideram algo normal. Também existe quem levante a voz, descarte todas as nossas ideias e, quando um homem sugere a exata mesma coisa, aprova e acha super legal”, diz. “E temos também os homens que gostam de explicar tudo várias vezes pra gente, achando que não entendemos ou que não sabemos como fazer algo”.
Hoje em dia, Ana Paula questiona esses posicionamentos e corrige quando a pessoa está sendo equivocada, cobrando atitudes e tratamentos iguais. “Mesmo assim, ainda preciso provar por A + B que sou capaz de fazer uma entrega que meu colega homem acha que não”, fala.“Algumas pessoas acreditam que a gente ama ‘fazer cena’, que não temos nenhum tratamento diferenciado ou que não sofremos nada por sermos mulheres. Essas pessoas provavelmente vão ler isso e pensar que estou exagerando. Gostaria que tentassem imaginar passar anos estudando, se dedicando para, no final, serem desconsideradas para uma vaga pelo simples fato de serem mulheres, terem que ficar muito tempo esperando para alcançar um objetivo que seu colega conseguiu rápida e tranquilamente. Como também se, caso você conquiste algo de forma rápida, alguém vai olhar e dizer: conseguiu por outros meios, não por merecimento”, finaliza.

 

 


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